quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
No fim, meu bem, a gente junta os cacos
De forma ou outra, com ou sem álibi, não considero minha desorganização um defeito. Ser desorganizado é uma forma de ser organizado às avessas, um jeito de sair do marasmo, conectar idéias que de outra forma jamais estariam na mesma pasta. Desorganização também é uma forma de raciocinar, de olhar o mundo. Nem certa, nem errada; apenas organizada de maneira desordeira.
Jamais consegui ter uma estante de livros. “O apartamento é pequeno, não cabe mais nada”, desculpo-me comigo mesmo, a fim de aliviar a consciência. Fica tudo mais ou menos guardado, mais ou menos jogado, numa parte do guarda-roupa (guarda-roupa? Todos no aguardo do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, previsto pra fevereiro). Desesperadoramente empilhados, parecem saltimbancos prestes a cair. Claro, nada é catalogado, separado, organizado. Henry Miller convive com Dostoiévski, Norbert Elias com Maquiavel, Cristovão Tezza com Cortázar; João Ubaldo com Capote, Borges com Kerouac. Uma orgia! Uma temeridade! Nas proximidades, as camisas convivem com as camisetas, as calças com os calções, as cuecas com as meias; há baralhos, dinheiro esquecido pelos bolsos, moedas que se perdem para todo o sempre.
Como administrador, então, fracasso absolutamente. O dinheiro vem e o dinheiro vai sem que tenha tempo de pedir notícias do mercado financeiro. Cerveja na esquina, saquinhos de pipoca... Falta para a conta da internet, para as pendências com os amigos, para quitar a dívida com o pai. Tenho o excelente hábito de me recusar a fazer contas, cálculos financeiros. Vai sobrar mês, eu sei, mas quem se importa? Se eu parar agora também vai sobrar noite, confere? Que sobre o mês, ora pois!
Nem o computador, que deveria ajudar depravados como eu, salva-se. O disco rígido é mais desorganizado que puteiro de quinta e às vezes, apesar de meu ateísmo, levanto as mãos aos céus e agradeço ao deus todo-bondoso pelo “localizar”.
Não me pergunte quando vence a luz, quando é a prova. Eu não sei. Na vida, sou um neurocirurgião com mal de Parkinson, um bêbado desastrado numa loja de porcelanas. Vou esbarrando no mundo, derrubando a prataria. Então, olho para o balconista e pergunto, com o semblante um tanto besta:
- Dá pra colar?
PS.: O Diazepam naufraga, mas eu, que não sou capitão nem nada (talvez mais nada que qualquer outra coisa), insisto em ir junto.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Pátria minha
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Crônica feia
É um convicção política, isso de não se importar em ser feio – chega-se a gostar de ser feio. Ser feio é estar à esquerda do espectro; a beleza é a direita. A beleza não se rebela, não se insurge, não pega em armas; a beleza é conformista e conservadora. Nenhuma grande reforma foi iniciada pela beleza, pelos bem asseados. As revoluções são feitas pelos feitos, pelos infectos, pelos despojados e mulambentos. A fealdade é punk, é o sorriso podre de Johnny Rotten. A fealdade é vermelha. E se a história tem mesmo um fim, o fim é nosso (a bênção, seu Karl Marx). Os feios, ao fim, vencerão.
Vou além. Ninguém de olhar menos sonolento se importa com a beleza. A beleza não é curiosa, interessante; a beleza é estandarte, brasão. Curioso mesmo são as mulheres barbadas. Por isso o mundo da ciência se curva diante de nós, os feios; pesquisa a feiúra. A sociologia nos defende, nos protege. Os sociólogos se interessam pelo pobre, pelo carente, pelo déficit sanitário, pelo desorganizado, pelo outsider – em suma, pelo feio. Está cientificamente e quantitativamente comprovado nos anais das pesquisas antropológicas e sociológicas: ser feio é interessante. Ser bonito, não. O bonito já está resolvido, é equação sem incógnita, problema tediosamente solúvel, coisa chata, sem graça, besta de doer. Veja só: uma mulher excessivamente bonita vai ser só isso. Qual é a graça? A beleza, de fato, está em ficar procurando defeitinhos, encontrando-os e achando-os bonitos. Está aí uma coisa que as mulheres precisam entender: os homens também amam as feias; não raro acima de tudo amam as feias.
Por quê? Porque ser bonito é ser constitucional; ser bonito é estar de acordo com a legislação, seguir às leis à risca; ser bonito é bom-mocismo e bom-mocismo é chato.
Mais chato do que ser bonito, só ser feio e ficar tentando reformar a lataria, como se fosse carro velho. Não orna. Um Chevette 79 vai ser sempre um Chevette 79. É feio. Pode ser um feio vermelho, azul, amarelo... um feio burro-quando-foge; um feio com ou sem trio elétrico. Mas é feio. Feio é fim, não é meio; ponto final e não vírgula. Wander Wildner já canta, punk-brega e alcoolizado, que queria ser bonito, mas não consegue. É insensato. O máximo que se pode conseguir com algo feio é deixá-lo feio e espalhafatoso – o que, convenhamos, piora as coisas. São as atitudes drásticas. Pintar seu Chevette 79 de cor-de-rosa, por exemplo. Pronto: agora você que odiava ser feio continua feio - e ainda por cima não pode mais passar despercebido.
Mas não é só isso (nunca é só isso, oras). É preciso admitir a feiúra com convicção, e para isso é preciso transcender, exercitar os defeitos. Não só os defeitos físicos (um lóbulo da orelha maior que o outro, os mindinhos tortos das mãos), mas todos os defeitos. É preciso admitir ser fumante incurável, admitir o eterno mau humor matinal, gabar-se da própria falta de sofisticação... é preciso admitir que você marca os livros com suas respectivas orelhas (as deles, não as suas, leitor estúpido!) e, na falta delas, dobrando as páginas mesmo; ser feio convicto é não ter vergonha das orelhas-de-burro. É ter algumas virtudes (muitas, talvez), mas fazer questão mesmo de exercitar seus defeitos. Ouvi isso em algum lugar: as pessoas gostam umas das outras por suas qualidades, mas só amam umas às outras por seus defeitos. A virtude é genérica (é esteticamente resolvida, não estimula investigação), o defeito é singular, único.
E, no mais, se não fôssemos nós, os feios, como é que os pobres de espírito iriam admirar a beleza? Uma coisa não existe sem a outra. Pensar e catalogar (inclusive de belo ou feio) é abstrair, e o cérebro humano é incapaz de abstrair sem parâmetros de comparação. Os belos têm uma dívida para conosco. Assim, por si só, nossa fealdade é, para dizer o mínimo, perdoada. Fujamos das academias, das clínicas estéticas; admiremos nossa feiúra ao espelho. O mundo nos deve essa.
sábado, 13 de dezembro de 2008
sinceridade
penso então que não escrevo há tempos, que nunca escrevi, que talvez nunca tenha escrito nada que realmente se valha a pena ler. penso que essa aura toda das coisas-que-dóem, dos furta-cores, dos úmidos entre as palavras permanecem todos aqui, trancafiados, andando de lado a lado como um pequenino demônio engaiolado, esperando apenas por uma brecha - uma fúria repentina e enlouquecida de todos os dedos, juntos - para se fazer mostrar. e penso em quão triste é uma vida engaiolada, uma vida que não consegue atingir a plenitude, nem sequer um mísero sucesso ocasional, mas que permanece tentando, sem glória nem reconhecimento, sem nunca atingir o primeiro lugar, mas insistente como uma mula pobre, como um murro rubro em ponta de faca.
então lembro de priscilla, que me disse - sem querer e sem rodeios - que escrevo como quem come. "todo dia, o mesmo cinza". clarice disse que o que se escreve de verdade nunca está nas palavras, mas sim nas entrelinhas. revirei minhas entrelinhas de cinco ou sete anos atrás, desde o primeiro drummond, e só me vi sangrando em cores, disfarçando sob o arco íris um doer que nunca tive certeza do nome, da ocupação, do endereço. nunca o critiquei, nunca o julguei, nunca quis que não existisse. tenho para o doer uma espécie de idolatria abusada, uma idolatria que me abre espaço para que eu o explore, o force a me oferecer coisas que não tenho, que nunca teria, e que o ponha contra a parede e o seque até definhar, e então esse doer morre, sem muitos lamentos, e outro me nasce, novo, mais forte, melhorado, como as coisas da vida costumam ser quando o processo é natural, e eu o acolho de bom grado mesmo que me dilacere, que me consuma, que me mate aos poucos, porque mesmo se não der certo, meu coração é esperto, não vai parar de bater. (apóio tamanho egoísmo no conhecimento popular que diz que só se fala com sabedoria sobre o que conhecemos com propriedade, e nesse mundo não conheço de nada que não seja eu mesma, e, ainda assim, muito pouco - mas não que me envergonhe, porque não conhecer das outras coisas do mundo me impede de tomar conclusões absolutas, me proíbe de dar tudo por conhecido, me condena qualquer julgamento, e permaneço frente a tudo sempre com o olhar de criança curiosa que não entende nada que vê e que, por isso mesmo, tudo lhe parece belo).
também meu pai me disse, em ainda outra ocasião, entre uns acordes de noel e outros de cartola, que de nada adianta cercar os certos e os errados, os justos e os injustos, que de nada adianta esfaquear com olhos e palavras as coisas mutantes e escusas, porque acima de tudo, acima das palavras de clarice, o que se fala é sempre sobre o curso. e o curso é um puto: segue por onde lhe convier, e desdenha em alma de todo o resto das coisas.
Inspiração ou 'O Crepúsculo Japonês'

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
O deserto dos banqueiros
Não gosto de bancos porque eles me lembram abatedouros. Pessoas comuns confinadas como gado, obrigadas a passar horas em filas, desapercebidas para o fato de que em breve enfrentarão caixas treinados para defender as fortunas de banqueiros impiedosos num ambiente de assepsia brutal, uma espécie de deserto habitado por chacais famintos que desidratará muitas vezes suas únicas economias e jogará seus corpos descarnados às bestas. De toda sorte, porém, com ou sem minhas resoluções particulares, resolvi abrir um conta bancária. Vinte um anos, de acordo com minha mãe, é idade mais que suficiente para que eu comece a administrar minhas parcas, minguadas, ralas e raras finanças. Na minha idade, veja só, ela já administrava uma casa, tinha dois filhos! Antes de tudo, é claro, resisti à idéia. Questionei-a a respeito de que talvez a solução para minha pessoa seria, ao invés de abrir uma conta no banco, fazer o filho – pareceu-me uma boa e divertida idéia; não o filho em si, mas o processo de confecção. Não, não era a solução, disse-me ela. Sendo assim, dirigi-me ao banco e abri a conta, depois de me complicar todo com um questionário; declaração de renda, essas coisas todas.
Dois dias depois, fui estreá-la, orgulhoso – meio enfadado, é verdade, mas orgulhoso. Nunca tirei os sisos, nunca criei juízo; uma conta bancária talvez fosse os sinal de que minha maturidade começava a acenar-me de longe; talvez eu estivesse chegando à idade adulta. Entrei no banco, olhando a tudo e a todos de cima para baixo. Lembrei de Balzac: os homens esquecidos pelo mundo vingam-se dele olhando-o de cima para baixo. Com os olhos altivos, procurei meu caixa específico. Por algum motivo que desconheço sou cliente class e tenho um caixa específico. Fiquei na fila, envergonhado, detestando a mim mesmo por fazer parte daquela segmentação. De um lado, um fila enorme de outsiders que como um intestino delgado fazia curvas e curvas. Do outro, eu e meus colegas de class. Dois ou três. Algum sociólogo deveria estudar as filas de bancos. Tenho certeza que sairá alguma coisa interessante daí. Para passar o tempo, reparei na gravata dos caras que circulavam pelo banco, orquestrando aquela hemorragia de dinheiro. Gravatas são símbolos fálicos, sempre defendi isso. E sempre me pergunto que espécie de idiota andaria com um símbolo fálico dependurado no pescoço. Hm.
Minha vez, anuncio para a moça do caixa que me atende:
- Oi, moça. Eu queria fazer um depósito.
- Cheque ou dinheiro?
- Cheque, digo eu.
Ela me olha com um sorriso complacente. Em verdade, vos digo: quando uma mulher lhe olha com um sorriso complacente, saia da frente. Elas rodam a baiana.
- Cheque só no auto-atendimento, disse-me, de maneira muito mais cordial do que eu esperava. Preciso parar com essas neuroses, quem sabe recuperar um pouco da fé na raça humana. Nem todo mundo faz da indelicadeza estilo de vida.
Mas estranhei, admito. Como assim não faz depósito de cheque aqui? Qual é a puta diferença? Não, não faz. Sinto muito. Quem sentia muito era eu, oras. Mas como não entendo nada de bancos, achei melhor não prolongar a discussão. Ela voltava a sorrir complacentemente e o mais correto de minha parte era não abusar da sorte, já que escapara ileso da primeira vez. Volvi e fui ao caixa eletrônico. Agradeci ao fato de não haver fila, pois sabia que ia demorar uns bons dez minutos até entender a lógica da máquina; assim, eu não corria o risco de ser xingado pela demora. Processo feito, dinheiro depositado, atravessei a rua para tomar uma cerveja, satisfeito. Oras, agora já sou um homenzinho, tenho o direito de molhar a goela nesta tarde de calor infernal, esta guerra já perdida contra o sol de dezembro. Acabei tomando umas seis, eufórico, e duas ou três cachaças, de modo que voltei para casa um tanto embriagado. Mas satisfeito. Muito satisfeito.
No dia seguinte minha mãe novamente (sempre ela, sempre novamente) alertou-me para o fato de que seria melhor tirar um extrato, ter uma prova caso alguma coisa ocorresse com meu rico dinheirinho. Minha mãe vive às voltas com essas teorias conspiratórias. Contrariei-me. Disse que ir dois dias seguidos ao banco ia contra meus princípios. Eu podia ter um piripaque, pegar uma infecção naquele ambiente asséptico. Sim, uma infecção, ora pois. A pior das infecções – a infecção do lucro pelo lucro. Ela limitou-se a perguntar quando eu de fato ia crescer. Fiquei desarmado e, batalha perdida, fui novamente ao banco. Caixa eletrônico, apertar os botõezinhos, tira da carteira o papel com o número da conta, errar a digitação, voltar, fazer de novo, e agora onde diabos eu enfiei minha senha? Por fim, surpresa: saldo zero. Zero. Zero! Mas não é possível, será o Benedito?, ontem mesmo moça, lembra de mim? Pois então, ontem mesmo eu vim aqui, não vim. Sim, naturalmente que vim. Não estou ficando louco. Pois então, ontem mesmo eu vim aqui e depositei nesta conta aqui – apontava para o papel com o número da conta – e depositei dinheiro. Quanto? Oras, quanto, como assim? Não seja indiscreta. Quando é problema meu. Sim, meu. O problema seu é que o depósito desapareceu. Sim, eu tenho certeza. Desapareceu sem deixar rastros, como se nunca tivesse estado lá.
De fato, nunca estivera lá. Demorei boa parte da tarde pra perceber que tinha depositado o dinheiro na conta errada. Inferi daí que bom mesmo é não crescer. Bom mesmo é ser criança. Bom mesmo é jamais precisar atravessar o deserto dos banqueiros.
O verdadeiro sonho americano

"Muito estranho para viver, e muito raro para morrer”, diz Raoul Duke, alter-ego de Hunter S. Thompson no livro Fear and Loathing in Las Vegas. Ele se referia ao amigo, sob a alcunha de Dr. Gonzo, mas também a si mesmo e a toda a corja de malfeitores que fazem o mundo girar. E giram com ele. Thompson escancarou o jornalismo, enfiando o dedo nas feridas da América selvagem e berrando opiniões. Mas só até 2004, quando meteu um tiro na cabeça após uma longa vida de idas e vindas, letras, medos e delírios. A busca pelo Sonho Americano ainda não acabou - ela continua imersa em todos os outros insanos sofredores apaixonados que renascem todos os dias em suas estranhezas.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Dezembro
sábado, 6 de dezembro de 2008
Routine
To Make Routine a Stimulus
Remember it can cease -
Capacity to Terminate
Is a Specific Grace -
Of Retrospect the Arrow
That power to repair
Departed with the Torment
Become, alas, more fair -
Emily Dickinson, 1871
Aquele fora um dia pesado. Maria levantou-se da cama na mesma hora de sempre, às seis e meia da manhã, horário a que seus olhos já se acostumaram. Adestrados, eles se abriram inesperadamente, trinta segundos antes do soar do despertador. O marido roncava a seu lado, chegara bêbado na noite anterior. Maria não era mulher de se enrolar, olhou para os lados e levantou-se, muito rapidamente. Após movimentos rotineiros da manhã, que ela fez mecanicamente, como um pequeno robô, saiu para trabalhar, deixando para o marido e para as crianças o desjejum sobre a mesa. Caminhar para o trabalho era uma rotina agradável.
Maria gosta do cheiro da cidade pela amanhã; ela sente um frescor, as pessoas caminham com frio – já vai esquentar, pensam, esfregando as mãos nos braços. Naquela madrugada, uma chuva fina caíra, e Maria sentiu-se feliz, pois gosta mais ainda do cheiro da cidade depois da chuva. “Não há nada como o asfalto molhado”, pensou. A cidade satisfeita com o banho oportuno, limpa como há de ser, livre de incômodos odores, pulsando em concreto. Maria é uma mulher urbana, nasceu em meio à urbe e dela nunca saiu. Não saberia viver sem esse calor, essa emoção, essas cores e esses sons.
Naquele dia Maria sentiu a vida fragmentar-se. Caminhava calmamente, e no trabalho, a rotina tomou conta de seu dia. Durante o dia todo, Maria não teve tempo de pensar no marido bêbado, nos filhos, em problemas financeiros. Não pensava neles não por estar ocupada demais, mas por estar cansada demais. Maria só queria uns dias para si, sem ter que pensar que as coisas vão transformar-se, mas sentir as mudanças. Ao sair do trabalho, Maria decidiu não ir direto para casa, como fazia todos dias. Parou em um bar próximo ao serviço e pediu uma dose de rum. Foram duas ou três: cabisbaixa, Maria pensava em uma liberdade perdida, em sentimentos de futuro já passados e em promessas de sentimentos infinitos. Pagou a conta com uma nota de vinte, ajeitando a manga do vestido, para em seguida levantar-se. Não cambaleava e não mostrava sinais de embriaguez. Ao chegar em casa, Maria encontrou o marido dormindo na mesma posição em que o deixara pela manhã, como se aquele dia – tão pesado! – não tivesse existido. Foi dormir com a sensação de ter sonhado.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Martelos e lajotas
Disseram por ai, e pra mim também; mas enquanto as vozes deles ecoavam, eu construía coisas complicadas, tortuosas, difíceis. Não ouvi nada do que disseram.
Disseram por aí que ele sabia quem eu era. E me disseram também que eu não sabia quem ele era. Escutei, não sabia o quê. Enquanto ele segurava meus braços abertos em frente ao espelho e falava sobre o futuro, eu escutava frases ao fundo, que soavam sem sentido e abafadas pela dor que eu mesma havia criado, pelas necessidades que eu não tinha, mas que desenhei na forma de facas, que apontavam sempre para mim.
Ele me disse que sempre estaria comigo. Ele me disse, e eu escutei. Mas enquanto escutava, o que eu ouvia mesmo eram nuvens escuras, densas, que drapejavam como bandeiras fincadas em algum lugar que eu julgava conquistado. Um lugar insípido, escuro e sem vida, um lugar em que o vento na verdade se recusava a soprar. Um lugar que eu construía meticulosamente enquanto vivia.
Um dia me disseram que ele precisava ir embora. O que eu ouvi foram gritos, de dor lancinante.
Um dia ele foi embora; deixou minhas asas todas desenhadas, projetadas no papel, e me entregou o papel. Ele foi embora. Me deu as respostas, mas não me ensinou as perguntas. Me deu asas, mas não me ensinou a voar.
Nunca mais o vi. Achei que era passado, tratei de esquecê-lo. Disseram, depois de muito, que ele nunca havia ido realmente. Eu não escutei; abandonei-o. Abandonei também o papel.
Passei a cavar bem fundo, pensando em como encontrar respostas. Criei batalhas, heróis, vilões; ganhei, perdi, empatei com todos os que me ajudavam a cavar. Criei princesas que precisavam ser resgatadas, criei muros bem altos para impedir que chegassem até lá. Eu nunca parava. Pensava em como vencer a batalha. Precisava que o herói vencesse.
Enquanto isso, me diziam, sempre, todos os dias. As palavras eram simples demais para serem pensadas.
Disse o filósofo que os problemas surgem quando as coisas são retiradas de seu uso natural. Disse ainda, muito antes, que o mundo daquele homem infeliz era diferente do mundo daquele homem feliz.
Eu escutava ao fundo, mas o que ouvia eram os sons da construção. Martelos, lajotas, andaimes e sei lá mais o que. As palavras me diziam como construir um prédio bem grande, com tudo aquilo que eu queria.
Enquanto isso, continuavam dizendo coisas. Disseram que minhas preocupações não se preocupavam comigo. Disseram que eu fazia coisas por pessoas que não se lembrariam do meu tempo gasto. Disseram que eu me importava com problemas que não se importavam comigo.
Um dia, eu abandonei todos aqueles que diziam coisas. E nunca mais me disseram nada. Preferi os prédios grandes, os planos, as batalhas por vencer. Preferi aquilo que eu dizia.
Um dia o prédio não agüentou mais. Desabou, em cima de mim. A dor que senti era finalmente verdadeira.
Um dia, não agüentando a dor, que era de verdade, que eu não construí, deixei de ouvir o que eu dizia para mim mesma. Não ouvi mais nada. Matei o herói, a princesa. Derrubei os prédios, tapei os buracos. Tirei as ferramentas dos construtores, matei-os também. Acabei com a batalha. Matei todos, não sobrou ninguém. Todos sumiram.
Foi quando ele voltou. Não voltou fisicamente, não poderia mais; mas voltou. Lembrei-me então de quando disseram por aí que ele sempre estaria comigo. E acreditei.
Um dia, voltaram a me dizer coisas. Dizem-nas a todo o momento agora. E elas não precisam ser pensadas, porque só as ouço. Não há buracos a cavar. Não há grandes prédios, nem lugares mortos. Não há herói, não há batalha. Na verdade, nunca houve batalhas. Simplesmente ouço, a todo o momento ouço. Não crio. Não faço nada daquilo que meu pensamento me pede para fazer. Ele simplesmente pede; eu, porém, não acredito mais nele.
Hoje bati minha bicicleta no espelho de um carro, entortando-o. A moça de dentro do carro parou. Meu pensamento, que sempre me pede para construir coisas, projetou uma série de insultos que eu teria de ouvir, seguidos de uma tristeza e medo súbitos. Ela então abaixou a janela, e, preocupada, me perguntou se eu estava bem; disse-me para tomar cuidado na rua. Segui meu caminho, feliz por ter passado por aquele momento.
sábado, 29 de novembro de 2008
Momento

Atirou as luvas ao focinho do cavalo,
e havia sinais de que o mundo, daquela pele para dentro,
iria terminar: como um suicídio ou um eremita.
Tenho um coração e um único Deus, disse ela.
Mas tens ainda um único Deus e sete orações.
E tens ainda uma arma no teu quarto.
E o que utilizas mais rápido: a arma ou as orações?
Não é pergunta que se faça uma mulher, respondeu ela”
Gonçalo Tavares, em A Biblioteca
Caminha, sem olhar para trás. O anel que tu me destes era vidro e se quebrou. A mão encosta na testa, enxuga o suor de horas sem olhar para trás. O que terá feito esta mulher? Quantas rosas terão desabrochado antes que ela olhe para trás? Sem hesitações, sem titubear. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou. A mulher traja um vestido azul da cor do céu e seus longos cabelos pesados estão presos em um penteado antigo; alguns fios passeiam com o vento. Seu rosto é antigo, marcado pelos anos, é inexpressivo. Do bolso, a mulher retira um terço; ela ajoelha-se – o chão é terra batida – e, vagarosamente, entoa um canto antigo, quase primitivo. Dos olhos amarelados, uma lágrima escorre pela face negra. Ela olha para o céu, e, vagarosamente, levanta-se. Caminha mais alguma distância sem olhar para trás: encontra um canteiro de rosas rubras. Ali, ajoelha-se mais uma vez, à espera de um porquê. Um por que olha para trás.
Do outro lado da rua
Dia desses, do outro lado da rua, parou um carro que talvez valesse mais do que tudo que ela já teve na vida. Do Aston Martin escuro desceu uma mulher linda. Alta, cabelos compridos, seios nem pequenos nem exageradamente grandes, barriga seca, pele lisa, e cheia de acessórios como brincos prateados, botas e roupas de marca. De lados opostos da rua, duas realidades de uma mesma moeda. Seu olhar ficou marejado. O charme com que a mulher andava, o glamour, a classe, tudo aquilo era o que o lado de cá da rua nunca ia oferecer. Batalhou tanto na vida, superou tantos obstáculos para quê? Para secar numa esquina do Centro. Logo o pranto se transformou num incontrolável choro. Aquela mulher linda, bem sucedida, poderosa, representava tudo o que ela nunca seria.
Não agüentava mais olhar. Saiu de sua esquina e começou a correr. Tentava se equilibrar do alto do salto, gritando alto. Por mais que quisesse, não seria uma mulher diferente. Sua vida era isso e pronto. Esse pensamento aumentava seu desespero, e ela gritava externando sua mais profunda dor. Como um último recurso, pediu a Deus que mudasse sua vida. Foi quando um baque ensurdecedor fez com que caísse ao chão diante do susto. Parecia um acidente de carro, mas maior que isso. Olhou para trás e viu seu local de trabalho a calçada da loja na esquina da Visconde com a Travessa, destruído por um ônibus. Ela já não chorava mais. Olhou surpresa para aquilo, com o rosto ainda úmido pelas lágrimas e o vento gelado batendo levemente em seus cabelos. Era Deus fazendo que sua vida mudasse.
Ela hoje trabalha numa boate do outro lado da rua, com férias e décimo terceiro. Tem clientes com carros caríssimos, ganha muito dinheiro, com o qual já colocou silicone, comprou roupas de marca, e agora viaja todo fim de ano, época em que o movimento não é lá grande coisa.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Jingle Bell
Até fico mais animadinho com isso, mas, terminantemente, não gosto de finais de ano. Justiça seja feita, detesto particularmente o Natal. Natal é chato. Chatíssimo. Nunca gostei, desde quando me conheço por gente – ou meio gente, meio mula, tal qual sou. Nem quando criança, na época em que ganhava bolas de futebol – que eu gostava – e carrinhos – que eu odiava e costumava deixar jogados numa grande caixa cheia de quinquilharias. Hoje, é claro, não ganho mais nem bolas de futebol, nem os terríveis carrinhos. Ganho meias. Talvez cuecas. Qual é a graça de ganhar meias? Nenhuma. Porém ganharei, é tradição. Meus pés estarão quentinhos, ao menos, mesmo que seja debaixo do sol de dezembro.
E por falar em pés quentinhos e, por extensão de sentido, corpos aquecidos, já começo a sentir o calor do “espírito natalino”, quase uma menopausa. Você, leitor desatento (faça-me o obséquio de prestar atenção, estou falando com você), vai dizer que sou rabugento, mas também não gosto de espíritos; eles me põem medo. Qual a diferença entre espíritos e fantasmas? Hm. Podemos então chamar de “fantasma natalino”? Podemos, acho. Vá lá. No fim das contas, tudo bem pesadinho, dá na mesma. Pois bem, ronda-me a casa agora o tal fantasma natalino. Vem anunciado naqueles panfletinhos que nos convidam para a novena de Natal do bairro. Está lá: “O espírito (fantasma, corrijo eu o panfleto) do Natal quer tocar seu coração”, ou algo tão criativo quanto. É o Menino Jesus que chega para aliviar a consciência dos ricos que, filantrópicos um mês por ano, estão novamente prontos a começar a nos sacanear em janeiro, depois daquele belo porre de champanhe na virada. Fantasminha camarada, esse do Natal.
Outra coisa que tenho contra o Natal: existe algo mais espalhafatoso que Papai Noel? Todo vestido de vermelho vivo (destaque para o gorro com pompom na ponta) e com aquela barba pouco higiênica. Bom velhinho, não. Para mim, com uma barba daquelas a ocultar-lhe toda a face, deve ser algum perigoso fugitivo da polícia tentando passar despercebido, entrando pela chaminé, melífluo, como um meliante, um fora-da-lei. Acusado, com razão, de exploração de menores, ao forçar os pobres diabos dos duendes a trabalhar o ano inteiro a fim de aprontar aquele monte de presentes – bolas de futebol, carrinhos e meias, que sobre outros apetrechos não posso falar com propriedade. E nós aqui, a empurrar as pobres criancinhas contra aquela barba áspera e incômoda. Sem a devida vigilância, qualquer dia ele ainda acaba por aliciar o filho de alguém.
Mal-amado! Azedo! Amargo! Ou qualquer outra coisa de gosto absurdamente ruim, acusa-me o leitor ainda desatento (mas será o Benedito?!) sem, no entanto, reparar na ceia. É pior. Muito pior. Note-se: arroz com passas e frango - pra mim é frango, sim senhor - com aquelas esquisitices de molhos doces. Por favor, tenhamos a bondade, sim? Sou um sujeito simples. Só gosto de comida de pedreiro e fujo como diabo da cruz desses leviatãs gastronômicos.
(Aliás, falando nisso, numa dessas fugas natalinas, inclusive, já estatelei-me sobre a árvore de Natal, essa parafernália que costumam montar em dezembro para atrapalhar o trânsito em minúsculos apartamentos já de difícil fluxo. Coisa ridícula, geralmente elas contam com algodão para “simbolizar” a neve. Em outra ocasião, mais desastrada, ganhei uns pontos com Herodes, quando esbarrei no presépio e decapitei o Menino Jesus, sob o olhar acusador do Papa, que rezava me olhando de soslaio a Missa do Galo. Ah, bem lembrado: existe coisa mais insuportável do que a Missa do Galo?)
Para terminar, desculpo-me por esta croniqueta calhar aqui tão adiantadamente. Nem estamos ainda em dezembro, eu sei. Mas desabafo aqui e agora porque o shopping perto de minha casa já fez o obséquio de lembrar-me, com sua fachada lotada de luzinhas intermitentes, que em breve a cidade inteira estará parecendo uma penteadeira de puta, emperequitada como uma meretriz de meia idade. Suspiro. Paciência. Como um asceta, suportarei mais este Natal. Com o tempo, quem sabe, me acostume. Ano que vem, afinal de contas, tem outro.